50 anos e 50 canções

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Há muitas maneiras de comemorar meio século de vida. Esta é a minha: compor uma lista de 50 canções que aprecio particularmente, por serem pequenas obras de arte ou apenas pelo significado que têm ou tiveram num dado momento da minha existência.

A única regra que impus foi não incluir mais do que uma canção do mesmo intérprete/grupo, sendo certo que, descobri depois, existem várias canções compostas pelo mesmo autor.

Ao olhar para esta lista, feita sem grande reflexão para, tanto quanto possível, ser desprovida de “filtros” e espontânea, é inevitável reparar na predominância de coisas publicadas nos anos 80, o período em que “adolesci”. Existia então mais tempo para escutar coisas novas, maior predisposição para acolher sugestões de coisas “velhas” e, sobretudo, espaço para umbigar e para procastinação. O que explica muita coisa.

Isto é também uma forma de falar de mim sem falar de mim. O meu apreço por estas canções vai muito além do gosto musical (ou até da falta dele…) – é uma partilha de algo que me define, um pedaço da minha história de vida… partindo do princípio de que isso interessa a alguém.

Sem mais, aqui ficam as “explicações” sobre 10 das 50 ” magníficas”…

1. True faith, New Order – 1987

 

“I feel so extraordinary
Something’s got a hold on me
I get this feeling I’m in motion
A sudden sense of liberty”

Se as primeiras 10  canções desta lista me ocorreram de um modo imediato, as primeiras 5 são simplesmente o “top of mind”, incontornáveis. O gosto pelos New Order nasceu do culto dos Joy Division e da transição de uma visão negra e deprimente da existência para um otimismo militante que haveria de marcar os “meus” anos 90. Os sons graves e guturais do Ian Curtis deram lugar a um pop dançável mas sem textos acéfalos.

Ver os New Order no Paredes de Coura 2019 foi o fechar de um ciclo: fascinante por tê-los por perto e desconcertante por escutar as metamorfoses hiper tecno que impuseram a muitas das minhas canções favoritas.

2. Lembra-me um sonho lindo, Fausto – 1982

 

“Lembra-me um sonho lindo
quase acabado,
lembra-me um céu aberto
outro fechado”

Assumir o meu apreço pela música do Fausto durante a adolescência equivaleu a manifestar apoio ao Trump num acampamento do Bloco de Esquerda… O pessoal ainda compreendia que gostasse do Zeca Afonso, do Sérgio Godinho e do Jorge Palma, mas Fausto!!!.. Pois bem, eu amo fervorosamente esta e outras canções do Fausto, especialmente as do “Despertar dos Alquimistas”, trabalho que ficou conhecido pela mais infeliz das canções que inclui: o “Coça a barriga”. 

Por mais que vos pareça inverosímil, a letra deste “Lembra-me um sonho lindo” é a versão bucólico-lusitana do “We’re hand in hand, we’re flesh in flesh/ We’re walking through the fire of love…” dos The Mission (“Love me to death”). Poderia merecer uma bolinha vermelha no canto direito do ecrã ou então, quando se fizer a história da música popular portuguesa nos anos 80, um lugar destacado no panteão das canções de amor.

3. Total recall, The Sound – 1985

 

“There’d be another time, another time
Oh there must be a hole in your memory
But I can see
I can see, a distant victory
A time when you will be with me”

Pode esta ser a mais fabulosa e bela canção de amor da categoria “dor de cotovelo”? Sim, claro que sim. Especialmente depois de escutada na sua versão ao vivo, incluída no “In the Hothouse”, onde toda a crueza da sonoridade da banda e os fantasmas do psiquiatricamente atormentado Adrian Borland se manifestam numa interpretação simplesmente arrebatadora.

Borland é um Ian Curtis dos sete instrumentos, com quem “partilha” um semelhante trágico desaparecimento – escreve, compõe, toca e vocaliza. Não há ali nada de fingido, nada de representação – o sujeito é quem escreveu e quem canta. Genuíno, autêntico e tão lindo quanto triste. 

4. I Know it’s over, The Smiths – 1986

 

“Cause tonight is just like any other night
That’s why you’re on your own tonight
With your triumphs and your charms
While they’re in each other’s arms…”

Mais uma canção cuja excelência se manifesta particularmente ao vivo. Os Smiths são uma das bandas da minha vida e aqui poderiam figurar o “The Boy with the thorn in his side”, o “There’s a light that never goes out” ou o “Last night I dreamt that somebody loved me”. 

Os desencantados textos de Morrissey, repletos de referências a uma desilusão constante com os outros e com o mundo, mas sempre impregnados de um lírismo arrebatador, misturam-se com a guitarra inconfundível do Johnny Marr para criar quadros de uma adolescência só possível de acontecer antes das redes sociais.  

5. Por quem não esqueci, Sétima Legião – 1986

 

“Ainda procuro,
Por quem não esqueci.
Por quem já não volta,
Por quem eu perdi.”

Apaixonei-me pelos Sétima Legião em 1986, ouvindo o “Sete Mares” na rádio. No meu aniversário, nesse ano, o meu irmão ofereceu-me o LP, em vinil, cujo contínuo consumo só veio “agravar a doença”. Descobri depois o álbum precedente e tive a oportunidade de os ver ao vivo , no seu auge, no Coliseu do Porto (com os Diva a fazerem a primeira parte), no início da década de 90.

Esta canção lembra-me a Margarida, a quem “dei” por escrito a notícia de que tinha entrado para a faculdade em janeiro de 1990, sem saber que ela tinha morrido num estúpido acidente de viação semanas antes; e lembra-me sobretudo a minha mãe, a pessoa mais presente de todas as pessoas ausentes  na minha vida. É uma das poucas cuja audição nunca deixou de me fazer estremecer, de sentir um arrepio na espinha.

6. Forest Fire, Lloyd Cole – 1984

 

“I believe in love, I’ll believe in anything
That’s gonna get me what I want and get me off my knees
Then we’ll burn your house down, don’t it feel so good
There’s a forest fire every time we get together”

Todas as paixões arrebatadas da minha adolescência (vá lá, não foram assim tantas…) tiveram como banda sonora esta canção do “Rattlesnakes”, onde figura também outra das minhas favoritas do Lloyd Cole, o “Patience”, bem como aquela maravilha intemporal que é o ” Are you ready to be heartbroken?”.

Lloyd Cole tem todas as qualidades líricas do Morrissey da fase The Smiths, mas sem a parte autodestrutiva, e tem continuado a publicar novo material regularmente. Desde o primeiro concerto em Portugal, no topo da fama, em 1988, passando por um insólito concerto numa praceta em Valongo (com meia dúzia de pessoas a assistir, perguntando quem era aquele senhor…) e até ao espetáculo que deu em 2016 na Casa da Música, com o filho, o meu gosto por o ouvir foi sempre crescente.  Provavelmente, é o músico que escutei mais vezes ao vivo.

7. Enjoy the silence, Depeche Mode – 1990

 

“All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm”

A edição do “Violator”, um álbum fabuloso onde surge este “Enjoy the silence”, coincidiu com a minha entrada na faculdade, que foi um dos períodos mais enriquecedores da minha vida (não, não foi por causa do curso e das aulas…) e certamente o mais divertido.

Esta canção é especial por ter sido o pano de fundo de algumas relações coloridas que experienciei mas também porque aborda a importãncia de estar em silêncio, de ser menos palavroso, de evitar aquela frase em excesso. Enfim, uma coisa que, tantos anos depois, continuo a ter muita dificuldade em fazer:-)

8. Everything will flow, Suede – 1999

 

“See the blue suburban dream
Under the jet plane sky
Sleep away and dream a dream
Life is just a lullaby”

Finalmente, diram os mais novos, algo menos vetusto (esta “só” tem 2o anos…). Os Suede são uma das melhores referências do que se convencionou chamar “Brit Pop”, com várias canções que entrariam numa lista das melhores dos anos 90, sem nunca terem sido hits absolutos em termos comerciais, como “The Wild Ones”, “Animal Nitrate”, “So Young”, “Lazy”, “She’s in Fashion ou “Beautifull Ones”

Paradoxalmente, a canção que escolhi  figura nesta lista sobretudo porque me faz lembrar o tempo em que lia e relia furiosamente Fernando Pessoa e, em particular, os versos de Ricardo Reis
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. 
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos 
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

9. Travis, Side – 2001

 

“Well I believe there’s something watching over you
They’re watching every single thing you say
And when you die they’ll set you down and take you through
You’ll realize one day

That the grass is always greener on the other side
The neighbor’s got a new car that you want to drive
And when time is running out you want to stay alive”

Os Travis são a banda que mais lamento ainda não ter conseguido ver “ao vivo”. Em primeiro lugar, porque têm montanhas de boas canções para tocar e, em segundo, porque conseguem criar covers de canções de terceiros absolutamente imperdíveis (2 exemplos: a ternurenta versão ao vivo do “Hit me baby one more time, da Britney Spears” e a originalidade da interpretação do “I kissed a girl”, da Katy Perry).

Esta canção dos Travis é também um hino à resiliência, ao “let it flow”, ao despojamento, uma forma diferente de dizer o que os Sétima Legião diziam no “Tão só”, em 1991, e que se tornou tão familiar para mim ao longo dos anos:

Sempre foi meu defeito, não saber reconhecer.
Que o que foi feito está feito, e não volta acontecer.
As causas que eu levo a peito, hão-de acabar por se perder.
E não recordo um feito, que os meus olhos possam ver.

10. Losing my religion, R.E.M. – 1991

 

“Oh, life is bigger
It’s bigger
Than you and you are not me
The lengths that I will go to
The distance in your eyes”

Como esta lista não está de modo algum ordenada, este clássico intemporal dos R.E.M., que definitivamente lhes deu a visibilidade planetária que mereciam (e nunca buscaram, antes pelo contrário), surge somente como décima referência. Na verdade, é uma das canções mais significativas da minha vida, porque de algum modo ilustra muito do que foi sendo a minha forma de estar. Porém, esta é uma daquelas canções com tantas interpretações possíveis que dizer que “reflete a nossa visão do mundo” torna essa definição ainda mais difícil e improvável.

Segundo os próprios, “Losing my religion” é na verdade um reaproveitamento de uma expressão usada no sul dos EUA, que significa “being at the end of one’s rope” e assinala o momento “when politeness gives way to anger.” São pistas sobre o que pode querer dizer, ainda que isso pouco importe quando a magia das boas canções (e, já agora, dos bons livros) é cada um encontrar a “sua verdade” refletida na relação que estabelece com esse pedacinho de arte.


11. Getting away with it, Electronic – 1989
12. Tempo de nascer, Ornatos Violeta – Editado 2011 (original de 1997?)
13. Somewhere only we know, Keane – 2004
14. A dustland fairytale, The Killers – 2008
15. Wonderful life, Black – 1987
16. The box, Damien Rice – 2014
17. Clássico, The Gift – 2015
18. Ainda bem, Marisa Monte – 2011
19. It’s time, Imagine Dragons – 2012
20. Butterfly on a wheel, The Mission – 1990

21. When we were young, Adele – 2016
22. The show must go on, Queen – 1991
23. Relax, take it easy, Mika – 2006
24. Chasing cars, Snow Patrol – 2006
25. Cristalina, Slow J – 2015
26. Drunk drivers/killer whales, Car Seat Headrest – 2016
27. First, we take Manhatan, Leonard Cohen – 1988
28. Gravity, Sara Bareilles – 2009
29. Amor combate, Linda Martini – 2006
30. A pele que há em mim, Márcia e JP Simões – 2010

31. Sonhos, Caetano Veloso – 1982
32. Les gens heureux, Herbert Pagani – 1976 (https://youtu.be/vzkZBl1UHmk)
33. One, U2 -1991
34. Hunting high and low, A-HA – 1985
35. Dream on girl, Rita Redshoes – 2008
36. Together in electric dreams, Philip Oakey & Giorgio Moroder – 1985
37. Candy, Iggy Pop (& Kate Pierson, dos B-52’s) – 1990
38. Wicked Game, Chris Isaak– 1989
39. White rabit, Jefferson Airplane – 1967
40. Time is running out, Muse – 2003

41. Juliet, Dire Straits – 1980
42. If you tolerate this your children will be next., Manic Street Preachers – 1998
43. It’s my life, Talk Talk – 1984
44. Don’t let the teardrops rust your shinning heart, Everything but the girl – 1986
45. Common people, Pulp – 1995
46. A gente não lê, Rui Veloso – 1982
47. Where is the love, James – 1990
48. Impressões digitais, GNR – 1989
49. Fizeram os dias assim, Trovante – 1986
50. Always on my mind, Pet Shop Boys – 1988


E, ainda, uma espécie de “Menções honrosas”…
51. The promise you made, Cock Robin – 1985
52. Crack in a smile, The Bolshoi – 1987
53.  You know my name, Chris Cornell – 2010
54. Come Undone, Duran Duran – 1993
55. Tie Up My Hands, Starsailor – 2001
56. Perfect, Alanis Morissette – 1995
57. Suspicious Minds, Fine Young Canibals – 1985
58.  The Winner takes it all, Abba – 1980
589 Miracle of Love, Eurythmics – 1986